O MAIOR ACIDENTE RADIOLÓGICO DA HISTÓRIA
O fato desse e de outros eventos drásticos, como
terremotos e erupção de vulcão, acontecerem em nações do Terceiro Mundo
torna-os, imediatamente tragédias de ordem social. Contornar crises como essas
requer uma estrutura de Estado forte que dê conta de prestar assistência a toda
população de forma igualitária, rápida e eficiente. Além de condenadas a lidar
com severas perdas materiais, as vítimas mais pobres desses desastres ainda têm
de lidar sozinhas com danos psicológicos que, pela ausência de tratamento,
tornam-se indeléveis, marcadas pela perda de um ente querido, pela sensação de
injustiça e pelo medo de que a vida nunca mais retome o ciclo normal.
Os grandes desastres radio-nucleares apresentam uma certa constância no
comportamento psicológico de vítimas deste tipo de evento. Estes efeitos se
fariam presentes também em 1987, com o vazamento de Césio-137 na cidade de
Goiânia-GO. A tragédia de setembro de 1987 pegou a todos desprevenidos: médicos
- que mal sabiam se proteger da irradiação dos seus pacientes - o Estado –
absorto diante do ineditismo da situação – e a impresa – que, por várias vezes,
agiu de forma sensacionalista, contribuindo para a disseminação do medo e
desconforte na população, ao publicar informações truncadas, que ela sequer
tinha condições de apurar, por desconhecer completamente o assunto.
Devido ao amadorismo na condução do processo
pós-traumático por parte dos sujeitos responsáveis e da imprensa, as
consequências psicológicas do caso de Goiânia tornaram-se muito mais graves do
que a própria contaminação. A sensação de insegurança causada pelo
comportamento vacilante desses sujeitos deixou marcas profundas na população,
anos depois do evento. O jornal O
Popular, em pesquisa realizada em 1997, revelou que 53,6% da população
goianiense ainda temia os efeitos tardios do Césio-137. Paira também o temor da
reincidência, da possibilidade de reviver um período que foi bastante difícil
para cidade, visto que a sensação geral é a de que o despreparo, apesar de
tudo, continua.
O trauma e o medo, oriundos da desinformação que
nasce logo nos primeiros dias do evento, por sua vez, geraram um silêncio
incômodo. Não se fala mais o assunto, não há sequer uma placa que identifique o
terreno baldio – hoje cimentado – onde as cápsulas foram rompidas. A voz das
vítimas que incitam o amplo debate foi abafada, pela vontade inconsciente de
esquecer este triste momento da história dos goianienses.
Ainda em 87, pesquisadores aleratavam para o fato
de que a exposição a doses de radiação promoveria alterações genéticas a médio
e longo prazo, muitas delas
transmissíveis às gerações seguintes. Com base nessa informação,
autoridades governamentais estenderam o direito de assistência plena até a
quinta geração das vítimas. O tratamento seria coordenado por uma instituição
criada especialmente para este fim. Os indivíduos que na época, eram uma legião
de crianças e adolescentes, e hoje estariam chegando à fase adulta, ocuparam um
espaço diferente na tragédia, visto que se encontraram, ainda na infância ou
adolescência, obrigados a lidar com sérias dificuldades as quais ninguém ao
certo conhecia. Experimentaram o riso do
esfacelamento da família e tudo que esta instituição representa, é difícil
traçar um comportamento-padrão em que se encaixariam estes indivíduos, mas o
certo é que formaram uma percepção da tragédia totalmente diferente das que
estamos acostumados a ouvir.
Esta segunda geração de crianças e adolescente
busca hoje espaço e inserção social e tenta – apesar do eterno medo de doenças
causadas pela radiação, da perda dos familiares dizimados pela contaminação, da
discriminação e da marginalização a que foram legados pelo Estado ( no claro
descumprimento do compromisso firmado de assistência) – estabilizar suas vidas,
trabalhar, se sustentar e construir família. Foi partindo deste raciocínio de
compor uma nova visão do desastre que surgiu a ideia de remontar a história do
evento em um livro-reportagem com base nos relatos desta segunda geração de Césio.
Nos jornais não se expõem a realidade, mas apenas
um recorte dela. Este recorte descontextualiza severamente o que é ali
relatado. Com isso, deixa de ser realidade e passa a ser ficção. Isso se dá no
caso de Goiânia, cujos recortes feitos até hoje dão uma visão dos fatos que
está longe de se constituir como verdadeira. Este livro seria, portante, mais
uma contribuição para clarear um pouco esta difusa compreensão da tragédia,
realocando-a no processo histórico da sociedade e rediscutindo pontuações importantes
que naturalmente surgem na abordagem do episódio.
Atribuir culpa a um dos sujeitos envolvidos
amenizaria, ainda que minimamente, a dor daqueles que se sentiam injustiçados e
revoltados. Uma pesquisa realizada por um grupo de psicólogos que acompanhou o
tratamento das vítimas em 1988 mostrou que a figura do culpado estava bastante
difusa na mente de todos. O Instituto Goiano de Radiologia, a Comissão Nacional
de Energia Nuclear, o Governo (Federal, Estadual ou Municipal), e as próprias
vítimas poderiam ser apontados como culpados, pelos contaminados, pelos
vizinhos dos focos, e pelos profissionais envolvidos.
Tratar o evento enquanto acidente tem grande
importância ao longo deste processo. Em um acidente não existem culpados, os
fatos se sucedem de uma tal forma que a ação dos sujeitos envolvidos pouco
influencia. Tratar o evento como acidente interessa largamente ao Estado (em
todos os âmbitos) e aos proprietários do Instituto Goiano de Radiologia.
Apontar a negligência dos catadores seria um ato absurdo, visto que estes não
tinham obrigação em saber que aquilo se tratava de um perigo gigantesco.
Ao isentar veladamente os sujeitos envolvidos na
tragédia de qualquer responsabilidade, a voz das autoridades – que reverbera
por meio da imprensa – cultiva nas vítimas e na populção o sentimento de
conformismo e ameniza o tom da revolta – marcante no período logo depois do
desastre – dos que se sentiam injustiçados e buscavam a personificação da
culpa. Muitos se enclausuraram no conforto da fé, a espera de uma Providência
Divina, outros se uniram na Associação de Vítimas de Césio-137. Por meio desta,
felizmente, têm se obtido algum avanço, em parceria com o Ministério Público.
Entratanto, há ainda cerca de 6.500 vítimas
reivindicando o direito à assistência médica e social, ao passo que o Estado
(por meio da SULEIDE, órgão responsável por zelar pelas vítimas) não as
reconhece, alegando não haver comprovação de casualidade entre o Césio-137 e
doenças graves – muitas delas desconhecidas – que eventualmente são
diagnosticadas nesses indivíduos. Morrem dizimados pela cirrose ou por
problemas no pulmão – alguns tiveram sua morte ligada ou tabagismo ou
alcoolismo. Semanas depois dessas mortes, acabam esquecidos, e o silêncio
continua.A extinção da antiga FUNLEIDE ( Fundação Leide das
Neves) e a implatação da SULEIDE ( Superintendência Leide das Neves), não foi
apenas uma mudança de nome. Na FUNLEIDE, as vítimas recebiam tratamento especializado,
com equipe de médicos formada especialmente para atender naquelas
circunstâncias singulares, que contava ainda com psicólogos próprios e rede de
assistência social.
Com a mudança para a SULEIDE, tudo mudou para pior,
tinham um atendimento próprio, único e exclusivo para as vítimas do Césio, já
com a SULEIDE não, todas as vítimas oficiais – mais de 500 pessoas – goram
jogadas para o Hospital Geral de Goiânia onde não há a mínima estrutura
preparada para esse pessoal. Infelizmente trata-se de um grupo diferenciado, é
um grupo que merece cuidados especiais, e o hospital não agrega condições para
isso, por falta de estrutura.
A extinção da FUNLEIDE marcou um período em que a
atuação da Fundação jamais esteve imune às variações políticas. Por isso, variava
com frequência entre a ação meramente assistencialista e o comprometimento com
a pesquisa. Este aspecto dificultou bastante a atuação da equipe de
profissionais da saúde. A lei garante assistência pela às gerações futuras do
desastre. No entanto, o alerta já foi lançado, e a segunda geração já assiste à
degradação da instituição criada especialmente para aquele fim.
Este
livro-reportagem deverá revelar se estas vítimas compartilham da perspectiva de
formar família e gerar uma terceira geração de vítimas, mesmo apesar do risco
de mutações genéticas que a contaminação pode causar aos futuros filhos, bem
como suas impressões – para o futuro.
Em Goiânia, especificamente, e no país, o evento
não desencadeou um esforço por parte do Estado para o fortalecimento de
instituições de educação, pesquisa e assistência social. O aprendizado das
lições da tragédia jamais se tornaram fim último do Estado, que mal consegue
montar uma rede de socorro às vítimas do evento de 1987. O aumento da
incidência de casos de câncer e leucemia na população goianiense e o medo de
anomalias na formação congênita de gerações futuras permeiam o cotidiano destes
indivíduos recém chegados à idade adulta, os quais não sabemos se possuem
perspectivas de uma vida profissionalmente estável, com família constituída e
livres do preconceito.
Contar a história deste trágico evento da nossa
história por relatos destes indivíduos é buscar compreender o fato afastando-se
das versões que dele conhecemos. Assim poderemos rediscutí-lo e extrair pontos
de vista novos, assim como promover o debate sobre o eminente perigo de
reincidência. A beira da crise energética do petróleo, vários países, entre
eles o Brasil, têm planos de investir em energia nuclear, o que aumentará
invarialmente o risco de desastres nucleares de proporções ainda maiores. O
silêncio é o principal obstáculo a ser vencido.